terça-feira, 27 de novembro de 2007

MR. BEAN É VASCAÍNO

“Final do Campeonato Brasileiro de 1997, um domingo qualquer do mês de dezembro. Eu, tenso, a assistir Vasco X Palmeiras pela TV. Um empate bastava ao Vasco para o seu terceiro título. Socorro, minha mulher, sampaulina roxa, alheia ao meu drama (com certeza se roendo de inveja) estava na cozinha. Paulinho, meu penúltimo filho (na escala etária), ainda não se entusiasmava com futebol, embora já desse seus primeiros chutes, do “alto” de seus dois aninhos de idade. No quarto, dormia minha caçula Natália, com seus dois meses de vida incompletos.
E eu ali, tenso, jogo 0x0. O Animal era nosso (todos sabem de quem se trata: Edmundo). Havia “comido” a bola durante o campeonato, tendo batido o recorde, até então, de 29 gols, artilheiro disparado. Mas, nem assim o Vasco marcava ... nem o Palmeiras.
Final do jogo, 0x0, Vasco Campeão Brasileiro!!! Resolvi extravasar a tensão, soltando alguns rojões (aqueles foguetes de três tiros) no quintal, esquecendo que minha caçula dormia no quarto próximo (àquela altura, nem iria me lembrar). Peguei o primeiro rojão, acendi-o e da beira da varanda apontei para o alto. Enquanto aguardava o primeiro estampido arremessando os três tiros, olhei para o rojão e desconfiei que o pegara invertido... em suma, apontava a saída dele em minha direção (o maldito rojão não tinha cores diferenciando o punho, onde eu deveria pegar, e a saída dele). Foi só o tempo de jogá-lo no quintal, livrando-me do acidente. Ledo engano: o maldito caiu no chão, no meio do quintal, apontado pra mim!!! E soltou os três tiros em minha direção!!! A minha sorte é que eles pegaram na parede da varanda ao meu lado, mas explodiram com muito mais barulho. A Natália acordou chorando e minha mulher correu para acudi-la sem antes passar pela varanda me chingando de irresponsável pra baixo (que aqui não ouso citar). E eu, ali, assustado, não sabia se ria ou chorava (de rir, é claro). Só me passou pela mente a figura inusitada do humorista inglês, Mr. Bean, e fui me refazer numa generosa dose de whisky, para aliviar a tensão.”
O autor do texto nosso Marcelo Botinha, presidente de honra do Cambonense, foi convidado para nos contar algum fato pitoresco ocorrido durante sua permanência na Caserna, ou em sua residência, não se fez de rogado e nos presenteou com Mr. Bean é vascaíno. 

sábado, 8 de setembro de 2007

O ELEFANTINHO

Aos domingos, no final da tarde, os sinos da igreja repicavam convocando os fiéis para a missa, celebrada no sotaque germânico de frei Caetano. Arranchados à porta do templo, de cuias na mão, um punhado de mendigos à espera de misericórdia, e às famílias que aos poucos iam chegando, pediam esmolas em nome de Deus. Terminado o culto, a meninada descia para a praça e, à vontade, numa euforia incansável, brincava de pega-pega contornando o “Cuscuz do Major”.
A fonte luminosa, ao som de música clássica, jorrava água numa coreografia sincronizada, lembrando um balé. Os pombos pontilhavam o chão do logradouro em busca do alimento, e em cíclicas revoadas retornavam para o alto da igreja, lá onde moram os sinos. No centro da praça, impávida, a estátua do homem que fez história, e que devido aos seus feitos, ficou conhecido como “O Marechal de Ferro”.
Comendo pipocas ao lado do garoto Decinho, Seu Elpídio, com habitual paciência, explicava ao filho atento a importância do herói reverenciado. “Floriano Peixoto, dizia o pai de cabeleira grisalha, foi quem consolidou a República no Brasil”.Alagoano de Ipioca”. “Motivo de orgulho para todos nós”, concluía. 
O local atraía vendedores ambulantes que ofereciam suas variadas guloseimas. Picolé, rolete, confeitos e para abrandar a insaciável sede, o irresistível caldo de cana. Decinho, invariavelmente, comia bananolas. Tamanha a sua predileção por esse tipo de doce, que lhe valeu o apelido de “Decinho Bananola”. 
Certo dia, numa dessas brincadeiras no parque, seu amigo Horacinho, conhecido pela alcunha de “peralta”, o deixou fascinado quando lhe assegurou criar no quintal de casa um filhote de elefante que seu pai, que era marchante, havia adquirido de um fazendeiro. Aquela afirmação lhe tirou o sono, sobretudo quando o amigo lhe convidou para brincar com o animal. Para tanto, impôs três condições: pagamento de um valor simbólico em dinheiro para ajudar nas despesas com a ração, sigilo absoluto e que no dia previamente marcado, fosse até lá sozinho para não assustar o bichinho de tromba. 
Devorado pela ansiedade da espera que o fazia roer as unhas, foi difícil manter-se calado, mas agüentou firme temendo quebrar o acordo.Afinal, chegou o grande dia. Acordou cedo e saiu tão apressado que nem escovou os dentes. Depois de violar o cofrinho e pegar o dinheirinho que havia economizado, partiu desenfreado à casa do amigo para realizar o sonho. Ao vê-lo bater à porta, saltitante, Peralta, que já o esperava, apressou-se em lhe cortar o barato, esfriando a alegria que Decinho trazia estampada no rosto, dizendo-lhe lacônico: “Não é possível, Bananola”, meu pai vendeu o bichinho ao dono do circo. 
Lívido com o impacto da notícia, foi dominado por um acesso de raiva que o fez atirar sem direção definida, as moedas que trazia na algibeira. Em seguida, cobriu o rosto com as mãos trêmulas e desatou um choro profuso, vertendo lágrimas aos borbotões sob o olhar triunfante e o riso sarcástico do amigo zombeteiro que continuava, sem remorsos, a torturá-lo: “os homens do circo vieram pegar ele ontem. Mas não tem nada não; ainda tem um jeito de você conhecer ele”. E esclareceu que o circo, para onde fora levado o elefantinho, fazia uma curta temporada na cidade e que, com apenas um quilo de jornal, ganhava-se uma entrada para o camarote. Peralta, além de mentiroso era acostumado a praticar toda espécie de travessuras. Pular os muros dos quintais alheios para furtar frutas, era uma delas. Ao contrário de Bananola, menino ingênuo e compenetrado, cujo passatempo preferido era realizar cirurgias em catengas, rasgando-lhes o ventre com uma gilete, convicto de que no futuro seria médico. 
Desejando abrandar a angústia que lhe corroia o peito, decidiu ir olhar o elefantinho no picadeiro onde, segundo Peralta, o animal ia dar espetáculo. Mas uma coisa instigou a curiosidade de Bananola que não se conteve e, antes de ir embora, perguntou: 
“Horacinho, para que o circo quer tanto jornal?” 
Era o que Peralta esperava para prolongar o engodo: 
“É para limpar o cu do elefante, otário”. E às gargalhadas fechou a janela, deixando Bananola só e ludibriado, que se acocorou na calçada e voltou a chorar, sentindo vergonha do ridículo de mais uma galhofa. Desde então, passou a ser alvo de constantes pilhérias. Todos, ao vê-lo, caçoavam perguntando-lhe se ainda queria ver o elefantinho. Visivelmente indefeso diante de tanta mangação, limitava-se a fechar a cara ligeiramente dentuça e de óculos, como se nela crescesse uma sisuda tromba. 
O Autor Adelmo Marques Luz, é cambonense. Nascido no Cambona, filho de Manoel e Helena Marques Luz, durante sua adolescência, teve em sua companhia, amigos inesquecíveis: Beto, Alder Flores, Nah, Vavá, Pinduca, Zé Maria etc, com quem aprontou poucas e boas, entre êles o amigo Bananola, que virou personagem de seu conto o Elefantinho. Edson Bezerra, o Bananola, hoje acima dos quarenta de idade, é um personagem bastante conhecido, não só no meio universitário, por ser professor de Sociologia e Antropologia, como também entre os artistas, compõe e canta, é o criador do famoso texto MANIFESTO SURURU.